camaleaum

:::somos mutantes porque somos humanos:::

15.10.05

Saudades

Minha avó tinha cabelos negros e cacheados. Pele cor de mogno e sorriso de marfim.
Lembro de quando era pequena e corria para me enconder do chinelo de minha mãe, entre as pernas de minha avó. Ela jamais permitiu que mamãe nos punisse, fosse qual fosse nosso delito.
Havia tanta magia naquele jeito singelo de mexer o chá na xícara, ou de simplesmente fazer tricô.
Óculos na ponta do nariz, concentração... silêncio. E lá ia ela, tecer longos chales, delicadas roupas de bebê, quentinhas mantas.
Acho que vovó era meio bruxa... Ela sabia das coisas... coisas que nao dizia para ela. Mas ela sabia. Assim como, quando eu me sentava entre suas pernas para que ela penteasse meus longos cabelos e ela prendia minha franja em dois delicados grampos de florzinha e eu dizia "Não gosto. Não quero que vejam essa pinta!" e ela sorria e me dizia: "Deus te marcou bem na testa, pra nunca, nunca te perder de vista. Isso é motivo de orgulho, porque entre todas as meninas, você tem uma estrela na testa."
Eu tenho mesmo... uma estrela na testa. Bem no centro. E hoje, diferente de quando era uma menininha, adoro mostrá-la.
Só tem uma coisa que eu gostaria de saber sobre essa estrela: Será mesmo que Deus não me perdeu de vista?
Ás vezes sinto falta de minha avó e suas histórias místicas sobre os motivos que nos faz passar por coisas boas e más.
Tô sentindo falta dela agora.
Dos chales, do perfume do chá, dos cachos negros de minha avó...