camaleaum

:::somos mutantes porque somos humanos:::

17.1.05

Ninguém

Quando cheguei havia uma fila imensa de mulheres. Pensei comigo "nao devem estar aqui pelo mesmo motivo que eu" e realmente nao estavam. Acontece que uma das máquinas de ultrassom havia quebrado, restando apenas uma. Todas as pacientes foram encaminhadas para o mesmo médico (o meu!!).
Uma espera de 2 horas e enfim me chamaram.
A enfermeira - como sempre - explica o procedimento. Pede que eu me dispa e deite com os braços atrás da cabeça.
O médico passa aquele gel frio e começa a circular a mama. Ele aperta em vários pontos, o que dói bastante. Penso que ele é um idiota que nunca teve seio e por isso fica judiando de quem tem. Viadinho!
Mas nao era esse o motivo.
Ele encontrou algo.
E pela cara que fez quando lhe perguntei se estava tudo bem, era algo ruim.
Depois eu entrei no lavabo. Me limpei daquela gosma e me vesti. Voltei á sala dele e perguntei denovo - numa esperança idiota de que fosse ouvir algo como "tudo bem".
Ele nem me olhou. Colocou a caneta que usava pra escrever qualquer coisa no meu prontuário sobre o papel, tirou o óculos e esfregando o indicador e polegar sobre os olhos disse, simplesmente:
- Seu exame fica pronto na sexta.
Eu nao insisti.
Saí daquela sala e passei por todas aquelas mulheres, sem olhar para nenhuma delas. Desci as escadas, atravessei a avenida, entrei no ônibus e sentei no fundo.
Chorei.
Nao há pra quem contar. O telefone está sem bateria. Encontro alguém no MSN, mas está arrasado com uma tragédia no trabalho. Outra pessoa está felicíssima com a conquista de um novo emprego e me convida pra comemorar na sexta.
- Claro! - respondo, automaticamente.
Sexta pode ser um bom dia pra comemorar - penso em silêncio.
Ou nao.
Tento, pela oitava vez o celular do namorado.
Caixa postal.
Ligo em casa: secretária eletrõnica.
Ninguém.
Não há ninguém em qualquer lugar pra ouvir meu medo, meu desespero;
Absolutamente ninguém.
Eu só queria, por um único dia, ter alguém ao meu lado em quem eu confie, que me olhe nos olhos e diga que nem tudo vai dar certo, mas que vai me ajudar a fazer com que fique o melhor possível.